O hantavírus atingiu o navio de cruzeiro MV Hondius. Tudo começou na Argentina. Agora as autoridades estão apontando o dedo. Um casal holandês morreu. Eles observaram primeiro um aterro sanitário de Ushuaia. A imprensa diz que eles pegaram o vírus lá. Parece dramático. Não faz sentido.
Vejamos os fatos. Onze pessoas ficaram doentes. Nove foram casos confirmados. Três estão mortos. O homem e a mulher holandeses foram os casos-índice. O homem, de setenta anos, adoeceu no dia 6 de abril. Ele morreu no dia 11 de abril. A esposa, de sessenta e nove anos, apresentou sintomas no dia 24 de abril. Ela morreu no dia 26 de abril em Joanesburgo. Ela estava tentando chegar em casa.
O hantavírus vem de ratos. Ou seu cocô. Geralmente dentro de casa. Sótãos. Celeiros. Gene Hackman morreu assim no Novo México no ano passado. Mas o tipo de vírus Andes? Besta diferente. É do rato pigmeu do arroz no Chile e na Argentina. E é o único tipo que se espalha de humano para humano.
“O aterro é um dos vários ambientes possíveis…”
Então aqui está a teoria. O casal percorreu o Cone Sul a partir de novembro. Argentina. Chile. Uruguai. Ushuaia. Depois, o cruzeiro em 1º de abril. Pessoal do governo dizem que o casal foi observar pássaros no relleno sanitario. Vi ratos. Fui infetado. Narrativa fácil. Limpar. Simples. Errado.
Estive lá em fevereiro de 2023. Observei o mesmo local. É um hotspot para abutres e águias. Os condores voam para pegar as sobras. Mas o aterro? Cercado. Você assiste da estrada. Você não anda no lixo. Você fica no asfalto. O vento sopra. O sol bate.
O hantavírus precisa de poeira. Ar estagnado. Você espirra uma nuvem de matéria fecal seca. O ar livre destrói o vírus rapidamente. Jennifer Mullinax, ecologista da vida selvagem, foi franca. A chuva e o vento diluem-no. Os surtos externos são raros. Eles precisam de solo ou ninhos mexidos. Não parado na rua.
Juan Petrina, epidemiologista da Terra do Fogo, concorda. Ushuaia nunca registrou nenhum caso. Nenhum roedor aqui corresponde suficientemente ao perfil. “Reduz muito a probabilidade”, disse ele.
Luis E. Escobar, da Virginia Tech, também vê isso de forma diferente. O período de incubação é selvagem. Quatro a quarenta e dois dias. Essa janela abre bem a porta. Eles visitaram o Chile em janeiro. Mendoza. Neuquén. Locais com reservatórios reais de vírus. Por que focar em 27 de março? O aterro foi apenas a última parada antes do navio.
Eles registraram a viagem? Talvez. eBird lista os avistamentos por nome. Alguns relatórios dizem que o marido carregou listas de verificação. Se o fizesse, a trilha poderia levar para o norte. Ou oeste. É uma bagunça.
De qualquer forma, a ciência pode não nos dar um único alfinete no mapa. Colleen Jonsson, virologista, observa que os vírus de roedores são parecidos em grandes áreas. O sequenciamento ajuda a estreitar a região. Não fornece um código postal.
Pior ainda, existem casos assintomáticos. O casal pode não ter sido o primeiro. Talvez outra pessoa o tenha trazido a bordo. Talvez antes. A origem fica confusa. Não corrigível.
No dia 14 de maio, um guia local chamado Esteban verificou o lixão. A mesma velha visão. Sem pânico. Apenas pássaros comendo.
A vida continua nos confins do mundo.























